Gosto muito de greves

A maior parte dos acontecimentos sociais passa-me ao lado. Não é de estranhar que tenha ido de Aveiro a Coimbra para me dirigir à secretaria do ISEC sem fazer a mínima ideia de que os professores do ensino superior iriam fazer greve. Provavelmente até poderia saber mas não imaginava que teriam a atitude ridícula e desprestigiante que tiveram.
Quando cheguei às imediações das instalações daquela instituição e vi que algo de anormal se passava pensei para comigo ‘bem, só quero ir à secretaria, não deve haver problema’. Pois bem me enganei. Os portões estavam fechados a cadeado! Dirigi-me ao portão de entrada junto da cantiga pois parece que era ai que estavam os professores-porteiros perguntei se podia ir à secretaria, pergunta à qual recebi um seco e altivo não. Saltou-me imediatamente a tampa! Ninguém perguntou porquê, se tinha urgência, de onde vinha. Lá expliquei estes factos todos e a resposta continuou a ser não! Outros alunos queriam entrar para usarem o estabelecimento de ensino e não lhe foi permitido esse acesso como se os professores tivessem autoridade para isso.
Estou desempregado e precisava de um documento da secretaria para começar uma actividade (espero eu) e nem assim os ditos professores se moveram. Perdi toda a razão e vi-me a exclamar ‘filhos da puta, querem sempre mais’. Afastei-me, dei algumas voltas sobre mim mesmo como um cão desorientado, acalmei-me e fiquei a observar. Vi professores que nunca pensei ver neste tipo de atitude de quem não tem formação cívica. Exemplos são a professora Deolinda Maria Lopes Dias Rasteiro ou o professor Nelson Luís Pincho, entre mais alguns que tinha em boa conta. Outros é perfeitamente natural encontra-los no monte, principalmente aqueles que apenas lêem apresentações nas aulas ou estão constantemente a mandar calar ao mínimo cair de caneta para mostrar a sua superioridade. Entretanto vi um professor que não sei o nome mas que me deu Programação 3 se não estou em erro e resolvi ir falar com ele pois, pelo que me lembro, seria uma pessoa calma e com quem se pode ter uma conversa. Expliquei a minha situação ao que se mostrou muito receptivo, diria até com vontade de a resolver e parece-me que se fosse ele o professor-porteiro eu teria entrado. No entanto nada fez para influenciar as bestas-professores-porteiros junto do outro portão. Agradeço na mesma a pequena conversa civilizada no meio de tanta mostra de falta de respeito para com os outros cidadãos.
É de falta de respeito que se trata. Um professor dá (vende) aulas. Se o professor dá aulas então quando faz uma greve é a sua função, a de leccionar, que fica interrompida como é lógico. Um professor não trabalha na secretaria ou mesmo que trabalhe não tem ai o estatuto de professor. Um professor não é bibliotecário. Então, porque carga de água um professor do ensino superior, supostamente a elite de pensamento da nossa sociedade, em quem depositamos a confiança para formar o futuro do pais, ousa fechar uma instituição de ensino forçando à greve aqueles que não a querem fazer e influenciando negativamente a vida daqueles que dependem dos serviços dessa instituição. É ridículo! Não me interessa o motivo da greve, nem tão pouco quero saber se tem razão ou não. Podem perfeitamente ter. O que não podem é usar outros cidadãos como objecto de chantagem ao governo.
A imagem dos professores perante a sociedade já não é famosa, visto a quantidade diminuta de bons professores, mas parece que gostam de mexer no lodo.
Quanto ao meu caso, na altura com os nervos não me lembrei de chamar a policia. Seria provavelmente o melhor a fazer e a atitude mais racional. Tive que me consolar, voltar para Aveiro e regressar a Coimbra no dia a seguir com todas as consequências negativas que isso pode ter para o meu eventual novo posto de trabalho.
Viva os professores! Viva a instituição do queixume!

Depois de escrever esta entrada leio uma noticia que faz referência ao fecho simbólico do ISEC e à permissão de entrada de alunos.

De acordo com João Louceiro, do SPRC, entre os professores que saíram hoje de Coimbra para o protesto encontravam-se docentes do ensino superior politécnico e também da Universidade.

Ao longo do “fecho simbólico” do ISEC, foi permitida a entrada de funcionários e de alunos que pretendiam, por exemplo, aceder à cantina – adiantou.

Fonte

Ora o que me aconteceu não foi lá muito simbólico.

Autor: rui

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