Cardadores de Vale de Ílhavo

Cardador

Cardador

O Carnaval nunca me disse nada de especial. Mas pensando bem nenhuma festividade diz. No entanto admiro as tradições associadas a ele. Talvez por serem menos despretensiosas do que os desfiles modernos.
Este ano falaram-me numa tradição que desconhecia por completo: Os Cardadores de Vale de Ílhavo. Esta é uma pequena localidade perto de Aveiro, fácil de encontrar. Infelizmente não encontrei informação online sobre horas para o cortejo carnavalesco mas acabei por acertar e seriam cerca de umas 15 e qualquer coisa já andava à procura destas personagens. O desfile em si não interessa nada, são sempre as mesmas críticas, feitas só porque sim, as mesmas músicas falsamente populares, as mesmas caras de quem carrega um fardo. Mas eis que de entre a multidão surgem as figuras típicas a roncar, a saltar e a cardar! Lindo!
Cardar: é uma fase pela qual a lã tem que passar na produção artesanal de têxteis, de modo a retirar impurezas e produzir um material que possa ser transformado em fios. Existem cardas em rolos e eléctricas mas as tradicionais são duas placas com agulhas.

Cardas

Cardas

Claro que as placas utilizadas pelas personagens carnavalescas não tem agulhas. Para melhor percebermos esta tradição ficam aqui algumas informações encontradas na web.

Gentes de Ílhavo – Os Cardadores de Vale de Ílhavo

Já que estamos em época de folia, neste número vamos falar-vos de uma comemoração até há alguns anos festejada em Ílhavo. De acordo com alguma documentação que nos foi dada, o Carnaval em Ílhavo é já muito antigo, tendo ficado famoso o de 1897, organizado por um grupo de pessoas que ficou conhecido por “CHIO-PÓ-PÓ”.

Segundo os mais velhos, “a tradição já não é o que era”, porque ficaram perdidas no tempo algumas figuras típicas carnavalescas como o Homem do Gabão, o Só-com-a-boca… Apenas os Cardadores de Vale de Ílhavo ainda revivem esta tradição. É neste local que todos os anos um grupo de homens mascarados sai à rua, primeiro no Domingo Gordo e depois na Terça- -feira de Carnaval, para assustar os habitantes da terra. Chamam-lhes os CARDADORES. Ora, como quisemos que soubessem um pouco sobre esta figura tão estranha e ao mesmo tempo engraçada do nosso Carnaval, ” A LÂMPADA” propôs-se entrevistar um ex-cardador.

A Lâmpada: Quanto tempo tem a tradição dos Cardadores de Vale de Ílhavo?

Sr. João Castro Santos: Ninguém sabe ao certo.

L.: De onde deriva a designação de “cardadores”?

J.C.S.: Vem de cardar a lã com cardas e, neste caso, os cardadores “cardam” as pessoas, sobretudo, as raparigas. É aí que tem origem a palavra “cardadores”.

L.: Por quantas pessoas é constituído o grupo?

J.C.S.: Depende das pessoas que queiram entrar na tradição. Não há uma regra para isto.

L.: O que é que é preciso para fazer parte do grupo?

J. C. S.: Têm que ser pessoas nascidas na terra e só entram para o grupo rapazes e homens solteiros. O grupo é orientado por dois chefes.

L.: Quando é que o grupo se reúne? E onde?

J. C. S.: Dois meses antes do Carnaval e numa casa destinada aos “cardadores” em Vale de Ílhavo.

L.: Como são feitas as máscaras?

J. C. S.: As máscaras são feitas com cotim, pele de carneiro, cortiça, bigodes de vaca ou de boi, duas asas de ave, fio, gazetas (fitas), fio de vela e “tabu” perfume.

L.: Em que consiste o traje?

J. C. S.: Roupa interior de mu-lher – combinação – um lenço de tricana, meias e sapatilhas.

L.:O que é que costumam fazer nas reuniões?

J. C. S.: Ensina-se os novos a saltar, a roncar, a cardar e a cantar canções.

L.: Qual é a forma de um “cardador” actuar em plena festa?

J. C. S.: Os cardadores saem para a rua e fazem a festa à moda deles: saltam e “cardam” as pessoas que acabam também por entrar na festa. Por fim, confra-ternizam em casa das pessoas que os convidam a beber e a comer.

L.: Quanto tempo foi “cardador”? Gostou?

J. C. S.: Fui durante 12 anos e só deixei no ano passado porque me casei. Gostei muito, porque se convivia.

Nota: Agradecemos a colaboração da D. Rosário, funcionária do Museu Marítimo, do Sr. João Castro Santos, o ex-cardador entrevistado, e do Mário Rui do 6º D que nos fez o favor de fazer a entrevista.

Autor: rui

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1 Comment

  1. Pois a modos que ouvi dizer, por gentes da terra, que eles davam “tareia” às meninas solteiras e talvez por isso o coração tenha disparado com a sua aproximação entusiasta. Mas vá, as cardas realmente não tinham agulhas e eles bem que se esmeraram nos trajes pelo que pareceram umas personagens bem simpáticas e festivas que uma vez mais trouxeram à tona as tradições realmente merecedoras de tal designação!

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