Ruta Torrente – Clamadoira – Salgueiro

Fomos parar a esta zona de Espanha sem saber muito bem o que iríamos encontrar. À primeira vista o parque de campismo parecia sobre lotado e as habitações de turismo rural acenavam com preços pouco convidativos. Acabou por ganhar o parque de campismo, barato por sinal e não é tão mau como se poderia pensar, inserido num parque verdejante. Estamos a falar de Mugueimes e da praia do Corgo.
Bem, pelos panfletos este trilho Torrente – Clamadoira – Salgueiro parecia prometer mas nada nos avisou para o que seria necessário para o percorrer. A aldeia de Salgueiro está na vertente norte da serra do Gerês, no vale do rio Salas, situada a 1020 metros de altitude. Foi abandonada pelos seus moradores a meados do século XX e actualmente é propriedade da Xunta de Galicia.

autorização clamadoira-salgueiro

Só ao chegar ao inicio do trilho vimos o aviso sobre uma qualquer autorização especial para percorrer o trilho. Depois de breves instantes a ponderar os prós e contras, não me apetecendo nada abandonar a ideia de fazer a caminhada, resolvemos avançar. Sempre com o máximo cuidado para não perturbar a fauna e flora existentes assim como não deixar qualquer vestígio. Aliás, ainda apanhámos algum lixo pelo caminho, especialmente papéis de rebuçados que com o calor deste verão podem ser muito perigosos como nos faziam lembrar os helicópteros que constantemente cruzavam os céus para acudir aos incêndios que se viam no horizonte.
A Igreja de S. Pedro é o ponto de partida. A primeira parte do trilho é feita pelos bosques de Mugueimes, que parecem ser isolados do tempo, transpiram magia e plantam sorrisos nos rostos dos caminhantes. Só por este bocadinho já vale a pena. Segue-se a um pequeno aglomerado de casas, uma longa subida e mais um aglomerado de casas. Umas reconstruidas, outras em ruínas. Cuidado com os cães, é preciso dizer.
A partir deste ultimo aglomerado, damos uma curva apertada e entramos em mais uma zona magnifica de bosque com muita humidade, mesmo no verão, e consequentemente, muitos mosquitos. Ao mesmo tempo que apreciava a beleza do bosque pensava que talvez não fosse o melhor local para estar em pleno Verão com tantos incêndios em redor.

Clamadoira

Saídos do trilho do bosque, subimos mais um pouco em direcção à igreja de Clamadoira onde podemos descansar, beber água fresca da fonte e apreciar as magnificas vistas.
Siga para mais um troço de natureza, ora por pinhal, ora por bosques, ora por montes desertos. De vez em quando uma placa lembra-nos da fragilidade do ecossistema. Aldeia do Prado, esta mais numerosa em casas do que as anteriores, podemos ao longo dos seus caminhos observar algumas construções rurais, coisas que muito gosto de fazer, principalmente porque as imagino recuperadas. Descendo ao fundo da aldeia, encontramos o inicio da parte magnifica deste trilho.
Uma antiga ponte, margens verdejantes e um idoso a molhar os pés no rio Salas, foi a primeira imagem desta secção. Nada mais havia a fazer senão sentir a frescura do sitio e parar para uma merenda.

Libelinha

Com o estômago mais aconchegado, parti-mos pela margem do rio, observando a fauna que se deixava ver, principalmente belas libelinhas azuis, e deliciados pela frescura da flora. O trilho transformou-se numa sucessão de pedras, saltos, carreiros com declives acentuados, enfim, um festim para o caminhante. Por esta altura apercebo-me que tinha perdido a minha navalha na merenda e dou uma corrida para a procurar. Encontrei-a mas foram mais 45 minutos de atraso.
Infelizmente aconteceu uma desgraça. A maquinaria pesada, ao abrir caminho, escondeu uma das placas entre vegetação alta, nada fácil de encontrar. Ora como, exactamente neste ponto, se intercepta outro trilho e a placa desse outro trilho está à vista, seguimos o trilho errado por vários quilómetros. Pouco liguei ao GPS e não reparei que estava a dar uma curva estranha. É o que faz o excesso de confiança. Só quando vi que estava demasiado perto da barragem de Embalse de Salas (penso eu que é assim) é que me apercebi do erro. Toda a zona está a ser reflorestada e a vegetação é rasteira. Foi fácil traçar uma linha mais ou menos recta até ao ponto de engano. Por esta altura já a agua da minha companheira estava no fim e eu pouca tinha. Ainda demorei um pouco a encontrar a tal placa escondida na vegetação e depois disso deparei-me com um dilema. Regressar para encontrar água na aldeia mais próxima ou fazer o resto do percurso. Ainda por cima a tarde estava a esmorecer e teria-mos que voltar ao parque de campismo. Tomámos uma decisão um bocado parva: a minha companheira voltou à aldeia para se abastecer de água e eu apertei a mochila e comecei uma corrida até à aldeia de Salgueiro.
Mal sabia eu do nível de inclinação que me esperava. A paisagem continuou sempre espectacular mas eu estava demasiado focado no meu objectivo para a apreciar devidamente. Cheguei a um ponto que não consegui correr mais.

Salgueiro

Finalmente, Salgueiro! Uns minutos para descansar, apreciar a aldeia, umas fotos de prova e beber metade da água que me restava e tinha que tomar o caminho de volta. Costuma-se dizer que para baixo todos os santos ajudam. Assim foi mas arrisquei um pouco demais e uma queda àquela velocidade nas enormes pedras do Gerês não teria sido uma coisa bonita de se ver. Com a ajuda da gravidade, vontade de chegar rápido perto da minha companheira e medo de ficar de noite no trilho, depressa cheguei ao ponto de partida da minha corrida. Provavelmente os quilómetros mais rápidos que fiz até hoje. Mais tarde apaguei o track GPS sem querer :(.
Bebi os goles que me restavam de água. Só faltava o troço de rio que vinha da barragem e me levaria à aldeia. Mais um esforço e num instante encontrava-me com uma garrafa de água na mão, que bebi em segundos.
Ainda deu tempo para uma troca de palavras com um habitante da aldeia e seguimos a passo apressado para o nosso destino. De volta à Clamadoira, a água fresca corrente soube às mil maravilhas. É uma sorte este trilho ter água tão boa disponível.
Este relato vai longo. Quero só avisar que a partir daqui, no caminho de regresso, por ser perto da noite, os insectos atacam em força e teimam em enfiar-se nos olhos!
Outra coisa não se pode dizer a não ser que é um trilho altamente recomendado com uma dificuldade média/alta. Fica uma tentativa de filmar uma libelinha e a localização do Ruta Torrente – Clamadoira – Salgueiro

Autor: rui

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