Portugal na Vertical 2013

Inscrevi-me neste brevet sem ter a certeza absoluta que o iria fazer. Quer seja pela preparação física, quer pelo esforço financeiro necessário; a coisa esteve por um fio. Ao mesmo tempo sentia-me mal por não tentar, era o único da série que me faltava. Lá orientei a logística da coisa e acabei por participar.
A saída de Viana do Castelo foi como outra saída qualquer, à excepção do nervosismo que aumenta em proporção do número de kms a percorrer. Quando vi a maior parte dos participantes irem com tanta sede ao pote, ainda a procissão ia no adro, apercebi-me que iria pedalar sozinho. Seria uma parvoíce para a minha condição fisica acompanhar os da frente, apesar de os avistar à distância por alguns kms. Fora algumas localidades onde foi mais complicada a passagem, assim como uma pequena desorientação, nada de anormal se pode assinalar até à próxima e primeira paragem.
No Porto, o primeiro posto de controlo, encontrava-se um grupo animado à nossa espera, com alguns mantimentos, uma diferente e agradável surpresa em relação aos outros brevets. Atravessar a cidade foi uma dor de cabeça. O evento de desporto automóvel que decorria naquele dia, a temperatura agradável que levou muitas pessoas à foz e as festas populares fizeram do Porto um lugar pouco recomendável a randonneurs com pressa (mas muito recomendável a visitantes).

A festa dos santos ficou do outro lado

A festa dos santos ficou do outro lado

Assim que me apanhei do lado de Gaia e fora da confusão da marginal nem queria acreditar. Finalmente podia aumentar a velocidade e descontrair um pouco. Segundo o patético código da estrada, uma bicicleta deve circular numa ciclovia se esta existir. Ora, isto baralhou-me um bocado, por um lado na estrada andava mais depressa sem me preocupar em levar um peão à frente por outro não queria ser incomodado por nenhuma “autoridade”. Portanto, foi assim um misto de ciclovia e estrada.
Depois houve uma zona em que as obras e sentidos proibidos me voltaram a baralhar. Depois os semáforos. Já só queria apanhar uma verdadeira estrada aberta, a 109, que não tardava em chegar para ganhar balanço até Aveiro. Foi na entrada da cidade que a “carrinha da volta” passou por mim enquanto fazia a sua viagem para a Ortigosa, próximo posto de controlo. Este carro ou outro qualquer não podem dar apoio por isso um adeus e uma fotografia é tudo o que se troca.
Um pouco mais à frente acabei por encontrar um colega de viagem mas como ele já estava jantado e eu ainda não me tinha decidido parar, lá fiquei novamente sozinho ali em Verdemilho, à saída de Aveiro. Já eram 21:00 e não queria arriscar não encontrar um restaurante aberto mais para a frente. Um dos grandes prazeres de andar de bicicleta é… comer. E fi-lo com grande vontade, talvez até um pouco demais. Um tempo precioso para descansar e repor energias. Ainda trouxe um bocado do jantar dentro de um pão só porque queria estar bem preparado para os troços desertos que se aproximavam.
Recomecei a pedalar com uma confiança do caneco, talvez motivado pelo facto de conhecer bem o troço, mas ao mesmo tempo apercebia-me que talvez tivesse comido demais. Foi tempo de abrandar o ritmo, uma paragem de digestão era a última coisa que queria; já tinha passado por isso no Alqueva 2012 e não foi uma experiência agradável.
Nunca tive medo de pedalar no Alentejo, mesmo quando encontrei na completa escuridão um grupo de motards, no meu primeiro brevet. Talvez por conhecer a zona, o tipo de condução praticada, por ser sábado à noite, por isto e por aqueloutro, penduraram-se alguns macaquinhos na cabeça. Cada vez que passava um carro e nada havia para além de pinheiros pensava “bem, este vai passar ou vai abrandar”. Na verdade, as aldeias, vilas e cidades eram um alívio. Levantei o dinheiro necessário para a viagem e acabei por deixar o cartão de débito na Ortigosa… pensava “se me assaltarem já só levam este”. Mas o resto da viagem foi bem mais segura.
Ortigosa: parece que espantei toda a gente quando lá por volta da 1:30. Esperavam-me mais tarde. A hora de chegada teve a ver com o bocado desde a Figueira da Foz a Souto da Carpalhosa. O piso é rolante e muitas vezes a descer. Mais uma vez, esperavam-nos voluntários com boa disposição e qualquer coisa para aconchegar o estômago! Encontrei neste posto de controlo três colegas de viagem. Um deles havia de já não sair dali de bicicleta, consequências de uma dor que o tinha vindo a acompanhar nos últimos quilómetros. Despachei-me com alguma rapidez para poder acompanhar os outros dois colegas de viagem, o José, que já tinha apanhado em Aveiro, e o Carlos, companheiro de já 600 quilómetros repartidos por 2012 e 2013. Um dos voluntários, do ENBA, gostou tanto de ver passar o pessoal que quer treinar para fazer os 200!!
Andar em grupo tem vantagens e desvantagens, sendo que na maior parte das vezes as vantagens compensam as desvantagens. Para mim a vantagem principal é o andamento. Mesmo que estejas cansado e queiras andar devagar, uns vão puxando os outros e se te atrasas mesmo, até esperam um pouco como me aconteceu algumas vezes. Outra vantagem é a navegação, ou porque alguém já sabe o caminho ou porque alguém tem GPS, poupas muito tempo. A desvantagem é adaptares o teu ritmo/corpo ao grupo. Não podes parar quando te apetecer. Por exemplo, à saída de Sines vi uma banca de fruta. Se tivesse sozinho parava, mas em grupo e como tínhamos acabado de sair de um café nem se propõe tal coisa. Sozinho tinha dormido, na locomotiva de grupo foi sempre a andar.
A passagem pela zona de Leiria tem uma navegação algo complicada. É que as bicicletas não podem andar na estrada principal.. os donos das bicicletas não pagam impostos e… onde é que eu ia? Pois, pouco depois de Leiria o sono começou a atacar em força. Não sei se foram as estradas largas e sem interesse mas só pensava numa paragem e num café que acabaram por acontecer um bom bocado mais tarde, antes de Rio Maior. Foi o suficiente para dar novo ânimo à jornada.
Entretanto, já passado Rio Maior, encontrámos o Simões, outro colega de quilómetros que se juntou ao grupo e formou um quarteto que nunca mais havia de se separar. Não me lembro de muitos pormenores da viagem até Lisboa. Lembro-me do sempre agradável nascer do sol, da passagem por Vila Franca de Xira (comigo a perguntar se não íamos tomar ali o primeiro pequeno-almoço); lembro-me da primeira vez que avistei as torres do CC Vasco da Gama e pouco mais.
Finalmente o posto de controle de Lisboa! Tempo de tirar a roupa da noite e esticar bem as pernas. Água caríssima e empregadas a torcer o nariz quando se aperceberam que alguém estava a ir buscar água à casa de banho… porque raio haviam de ficar assim quando o grupo fez uma despesa considerável ao pequeno-almoço? Bem, não interessa.. depois de pequeno-almoço tomado e galhofa feita foi hora de ir apanhar o barquinho para a margem sul, operação que correu muito bem sem tempos de espera. Menos positiva foi a queda que a minha bicicleta deu que rebentou com uma das pequenas luzes dos drops e empenou o eixo pedaleiro.
Companheiros de viagem

Companheiros de viagem

Não fazia ideia da seca que ia apanhar até Setúbal. Carros, semáforos, subidas e descidas com um ciclista todo espalhado no fim. É só o que digo. A zona até tem algumas atracções mas o primeiro calor do dia não as deixou apreciar. O que vale é que Setúbal albergava outro posto de controlo.
Entre o tempo passado na galhofa no café e o tempo de espera pelo ferry, deu para recuperar algumas forças. Achei que estava na hora de reservar um quarto no destino e assim fiz. Por esta altura acreditava que chegaria ao destino e mais que isso, acreditava que ainda chegaria de dia. Um bocado optimista. Neste posto de controlo comi coisas ligeiras mas na verdade cometi um erro. Deveria ter comido algo mais substancial, uma massa ou algo parecido com um almoço verdadeiro porque enquanto depois esperava pelo ferry, deu-me a fome novamente. Durante a travessia também me comecei a sentir mal de estômago, um sentimento que ora ia, ora vinha durante o resto da viagem.
Travessia feita, paisagem apreciada, vamos lá pôr-nos no alcatrão e rolar por aí abaixo. Pelo menos era esse o plano até que um furo persistente nos roubou algum tempo. Por esta altura ninguém no grupo pensava em abandonar ninguém por causa de um furo. O problema até não foi bem o furo. O problema foi resolver o problema sob o sol quente onde nada podia dar uma sombra. Pelo menos eu fiquei um bocado abananado e não demorou muito até pararmos para reabastecer de água, comida e pôr uns gelados no bucho.
Penso que a viagem até Sines foi particularmente penosa para todos. A minha má disposição aliada ao calor (que nem foi um dia dos piores) fizeram com que cronometrasse o tempo para beber água. De 10 em 10 minutos tinha que beber, mesmo sem sede. Se não me engano, foi antes de Sines que se apanhou um troço de suposta autroestrada que ainda não funciona em pleno. Para mim é uma grande seca pedalar em estradas largas do genero. Não me posso esquecer que o meu terreno preferido são trilhos sinuosos no btt e estradas rurais em alcatrão.
O posto de controlo de Sines foi feito por pergunta e só a nós cabia a decisão de parar ou não. Por falta de água acabámos por descansar mais um pouco em mais um café à beira-mar. Com uns petiscos bem bons por sinal. Ainda tivemos que andar uns metros com a bicicleta à mão, consequências do Portugal em obras pré-eleições. A próxima etapa, Sines-Cercal, sabia-se dura, depois de 500kms nas pernas.
Foi dura sim, mas prefiro subidas íngremes a subidas assim-assim e rectas que nunca mais acabam. É que a subida distrai, faz-te concentrar naquele momento e naquela dificuldade. Ah, é verdade, por esta altura o meu rico rabinho também já não estava em muito bom estado. Cheguei ao Cercal num estado um bocado tramado. Muito mal disposto, sem saber se tinha fome se tinha sono. Por sorte, por muita sorte, enquanto comia uma sandes de presunto, a má disposição foi-se e apoderou-se de mim um ânimo daqueles que se sentem quando se está doente e depois se está bem. Não havia de durar muito mas naquele momento foi crucial. Foi o que me fez gritar “vamos lá carago” enquanto nos dirigia-mos a um belo pôr-de-sol. Nota para o posto de controlo do Cercal, um café com muito bom aspecto.
Pôr do sol depois do Cercal

Pôr do sol depois do Cercal

Anoiteceu e arrefeceu. Simultaneamente o nosso ritmo aumentou. As estradas, na sua maior parte com pouca inclinação, ajudaram a manter um ritmo entre 25 e 34 kms/h. Pode não parecer muito mas para quem ainda há pouco tinha pensado que estava para ficar, é fantástico. Os últimos quilómetros são feitos num sobe e desce que me gelou o corpo, obrigando-me a parar para vestir o casaco antes das descidas finais para Odeceixe.
Pensava que iria chegar ao fim e me ia atirar para o chão e adormecer instantaneamente ou ia começar a chorar ou outra coisa qualquer dramática. Nem por isso.. cheguei a sorrir mas de uma forma que quase que tive que disfarçar. Afinal não é todos os dias que se completam 600kms em 33 horas.
Os colegas e organizadores-voluntários que chegaram mais cedo já tinham um jantar tardio preparado. Foi logo de seguida que nos sentámos à mesa para brindar e comer uma boa refeição seguida de uns bolinhos acabados de fazer. Mas a festa não estava completa. Havia ainda alguém na estrada, a randonneuse Angela, que com a sua pedalada característica ainda pisava o alcatrão das nossas estradas. Esta situação levantou uma onda de preocupação nos presentes e não presentes a perguntar pelo estado da colega até de madrugada. O tempo limite são 40 horas mas fazer estas 40 horas completas sem dormir pode não ser uma muito boa ideia. O meu conselho, porque sei que ela vai ler, é tentar treinar velocidade em recta. Durante os cerca de 50kms que pedalei com a colega no Alqueva 400 deste ano, reparei que tem uma cadência elevada mas em mudanças muito baixas. Não tem mal nenhum acabar mesmo nas 40 horas, eu mesmo ia preparado para isso, mas é necessário outro tipo de planeamento e descanso. Se eu não tivesse apanhado um grupo, nunca lá chegaria em 33 horas e o mais certo era ter dormido pelo caminho e chegado de madrugada, se chegasse sequer.
Depois aconteceu-me algo insólito. Bati à porta da tal hospedaria onde tinha feito reserva. Nada. Estranhando, telefonei e não é que me diz a senhora “ah agora não posso (inserir motivo aqui) vá ali não sei onde que também tem quartos” … isto quase à 1 da manhã. Para quando uma fiscalização apertada destas “hospedarias”? Ultimamente ando numa onda de denunciar tudo e todos. A senhora teve alguma sorte naquele dia ou pelo menos até um dia destes acordar menos bem disposto.
Na manhã seguinte levantei-me eram cerca de 10 da manhã para atender uma chamada. Não demorei muito de pé, as paredes parece que se mexiam e atirei-me outra vez para a cama até perto do meio dia. Os efeitos secundários da viagem fizeram-se sentir durante algum tempo, o que me fez pensar no tratamento que o corpo leva durante estas aventuras. Até cheguei a pensar vir no expresso que sai de Odeceixe às 9 da manhã. Agora não me parece de todo uma boa opção. A quem um dia pensa participar, o melhor é aproveitar e tirar umas férias por aquelas paragens, já que é uma zona bastante agradável.
Estava a pensar participar nos brevets de 2014 apenas como voluntário mas parece que é aconselhável fazer pelo menos as distâncias maiores para deixar em aberto o Paris-Brest-Paris de 2015. A ver vamos, para já está feito!

Tenho que agradecer a todos os voluntários que tornaram possível a realização deste brevet, aos que fizeram comida para os postos de controlo, à familia que me acolheu em Viana do Castelo, à “hospedaria” que me acolheu em Odeceixe e Lisboa 😉 e aos companheiros de viagem. Se me esqueci de alguém, que me perdoem.

Autor: rui

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