Paris Brest Paris 2015

Costuma dizer que só faria o PBP uma vez. Que depois havia muito por onde escolher. Estava muito enganado.

A viagem até França
Cedo decidi que haveria de ser feita de carro. Não foi o ser mais barata que o avião, contabilizando apenas custo directos com o combustível, que me convenceu mas sim o facto de ser tão mais prática. Ou tens uma mala completamente rígida para transportar a bicicleta no avião ou vais ter uma surpresa má. Depois, bicicletas de ir para longe, com guarda lamas decentes e um conjunto de apetrechos não são próprias para andar a montar e desmontar para enfiar no avião. De carro também não é só vantagens: é uma viagem perigosa, demorada e afecta as costas.

Os dias antes
De alguma forma senti que não aproveitei aqueles dois dias como devia. É das poucas coisas que mudaria numa próxima edição. Um pequeno passeio pelas belas aldeias francesas é quase obrigatório para o relaxamento pré PBP.
O bike check foi rápido apesar de, na minha opinião, para pouco servir. Desde lanternas presas com fita isoladora a luzes vermelhas a apontar para o céu, viu-se de tudo. Ponto positivo para a segurança no recinto. Apesar do numero de bicicletas não era de todo fácil roubar uma.

O PBP
Comecei com um erro. Uso o telemóvel como GPS e não confirmei que estava tudo a funcionar antes de começar. Quando quis começar a gravar, não funcionou. Resolvi facilmente o problema em andamento enquanto acenava às pessoas que viam os participantes sair para aquilo que é para muitos a aventura da sua vida.
Os primeiros quilómetros foram marcados pela novidade das paisagens e das pessoas. A combinação das duas oferece uma confiança para a jornada a que se calhar poucos estão habituados nos seus países de origem.
A noite caiu e a paisagem transformou-se em linhas infindáveis de luzes vermelhas. Alguns procuravam já cama nos campos. Decidi que não dormiria na primeira noite. O que precisava mesmo era de jantar que não tardou. Eu e o Carlos, o meu companheiro de jornada fomos andando noite fora até que por força da manhã e dos primeiros raios de sol acelerei um pouco. Pensava que ele me ia apanhar mas na verdade acabamos por se desencontrar. Não sei contar em que postos de controlo nos vimos e dissemos “vou andando” e “ainda vou comer qualquer coisa e dormir um pouco”. A verdade é que estas separações são normais e ninguém leva a mal, ou pelo menos não deveria. Não sei exactamente onde comprei uma baguete, comi metade e enfiei outra metade na mala perante o olhar curioso de alguns franceses. Segui por ai fora todo contente e a pensar que há coisas na vida que nunca esperamos fazer e uma delas é com certeza pedalar França fora com meia baguete enfiada na bicicleta. Dormi uma hora num campo, o suficiente para o corpo recuperar, depois daquilo que, se bem me lembro, foi um almoço num posto de controlo. Acordei, voltei à estrada, troquei umas palavras com o Stuart, bom moço dos Audax Ireland que no ano passado esteve em Portugal. Arranquei por ai fora, com a genica que me era possível, deixando o Stuart o que muito me surpreendeu.
Às tantas o Tiago, outro companheiro do último BRM Portugal na Vertical alcançou-me e acabaríamos por pedalar juntos durante muitas horas. Estávamos juntos quando saiu a segunda noite e alcançamos um posto de controlo por volta das duas da manhã. O Tiago queria dormir mas eu fiquei um pouco reticente em relação a dormir num posto de controlo. Pior, pagar para dormir no meio de, provávelmente, tanto ronco. Depois dele se dirigir para as suas instalações ainda dei duas ou três voltas sobre mim mesmo a tentar decidir se seguia e depois dormia num canto qualquer da noite ou ficaria mesmo por ali. Observei. Vi um canto de duas paredes e pensei que seria um sitio quente. Por acaso as paredes até estavam quentes e embrulhei-me sobre a relva na manta de emergência. Acordaria dai a duas horas um bocado para o congelado. Procurei um lugar quente e mandei uma SMS ao colega de viagem de etapa. Esqueci-me que as mensagens em roaming podem demorar uma eternidade a serem entregues mas ele encontrou-me na mesma.
Acabou por sair um grupo de portugueses daquele posto de controlo mas cedo percebemos que precisávamos de andar mais um bocadinho e tivemos que dizer adeus. Enquanto avançávamos pela noite gelada eram muitos os que tombavam nas valetas. Exaustão, frio, desalento e mais alguns motivos decerto obrigaram muita gente a parar um pouco.
As descidas da madrugada foram particularmente penosas para mim. Levava um jersey e um casaco vestidos mas não era suficiente, devia ter vestido uma camada base. Acabei por parar para trocar para umas luvas bem grossas de inverno/chuva. Lá me aguentei até ao balde de café com croissants e o quentinho do café/restaurante.
Dois ou três ciclistas, que arrisco dizer terem perto de 70 anos, sentaram-se à minha frente. Pediram os seus cafés, chocolates e croissants e meteram-se na conversa. O que me impressionou foi a calma com que o fizeram. Se eu não soubesse diria que estavam a dar a sua voltinha de domingo. Pensei comigo “se eu tiver este comportamento quando for desta idade, vou ficar muito feliz” e então o Tiago comenta comigo qualquer coisa como “já viste a calma com que estes gajos encaram isto?”
Ponte BrestA próxima coisa de que me lembra é a paragem para tirar uma fotografia à ponte de Brest. Lembro-me de numa das subidas para Brest uma rapariga parecia-me chorar a pedalar enquanto um rapaz a ia consolando. Neste ponto apercebi-me que para muita gente isto, o PBP, é o culminar de muito trabalho, um objectivo final e absoluto, a aventura de uma vida. É que a chegada a Brest transmite uma sensação de objectivo cumprido. Mas não, faltam mais 600 quilómetros.
Não nos demoramos muito em Brest. Quando voltamos ao estacionamento, as bicicletas estavam no chão e depois de meia dúzia de asneiras a arrumar os tarecos no sitio, lá fugimos da cidade. Sinceramente não me lembro de grande coisa imediatamente depois de deixar Brest. Sei que por momentos fiquei confuso. Não reconhecia o caminho de volta que seria mais ou menos o mesmo da ida, o que até era normal já que parte dele foi feito de noite. Mas mesmo assim senti-me confundido.
Às tantas, o Tiago começou a ter algumas dores na perna direita. O ritmo abrandou. Persegui um velomobile durante um bocado só para o ver descer. Desapareceu num piscar de olhos e fiquei à espera do Tiago enquanto contemplava a paisagem.
Parei para apertar o meu farol que se ia soltando com a trepidação, reparação que demorou apenas uns minutos e fui apanhar o meu companheiro. Pelo meio alguém chamou por Portugal apenas por curiosidade e aprendi o que raio queria dizer SoCal que uma rapariga tinha escrito no Jersey. Southern California… acho que poucas pessoas sabiam isso. Era muito lenta para mim e eu tinha o Tiago para apanhar por isso, despedi-me. Enquanto me afastava pensei algo como “está a 10000 quilómetros de casa, não me posso queixar muito por ter conduzido 1800 quilómetros para estar aqui”
Apanhei o Tiago que se continuava a queixar da perna. O cenário não se estava a montar famoso.
Não me lembro nem quando nem como nem sei os apanhámos nem se eles nos apanharam, juntámo-nos aos nossos companheiros de Portugal. Assim sendo, tive luz verde para dar ao pedal sozinho. Assim foi.
Tenho notado um certo tipo de digamos, fenómeno, que acontece no corpo depois de grandes distâncias, principalmente a nível das pernas. Não sei se o consigo explicar mas é como se a partir de determinado momento não importa se fazes mais 100 ou mais 200: as pernas estão sempre prontas para mais, suportam esforços que nunca pensarias que ainda suportariam. Tenho a sensação que já li alguma coisa sobre isto: é uma sensação conhecida.
Voei pelas bancas familiares com café e bolos. A minha ideia era parar em Saint-Martin-des-Prés mas preocupava-me um pouco que as salsichas e batatas fritas já lá não estivessem. A comida de emergência não era muito e não é para ser gasta assim. Felizmente ainda havia festarola na terra e musica a receber os randonneurs. Pernas esticadas, comida e bebida ao lado, vi passar as pessoas que ultrapassei e comecei a pensar na vida. Não estava preocupado. Não me esforcei para chegar mais cedo, esforcei-me porque me deu prazer, porque o meu corpo o permitiu. Podia estar ali uma hora que mesmo assim não me ia preocupar. De seguida ia esforçar-me novamente só porque podia. Penso que foi a primeira vez que me senti assim: andar depressa não significa chegar cedo.
Escolhi Loudeac para o banho e mudança de roupa, coisa que só fiz uma vez durante os 1200kms. Não vou dar muitos pormenores sobre esta paragem, a higiene é sempre uma coisa complicada que cabe a cada um gerir da melhor forma possível. Uns aguentam mais porcaria, outros menos. Certo é que, roupa lavada no pelo rejuvenesce o espirito. O Tiago apanhou-me, afinal tinha deixado os outros lá longe e por sorte reparei nele quando estava para me ir embora. Assim sendo decidi que desta vez havíamos de ir juntos.pbp2015dawesAlbarda
Comíamos uma laranja sentados numa entrada privada quando um carro parou à nossa frente. Já estamos lixados, pensei. O homem saiu do carro e disse “não se preocupem, quando acabarem deixem as cascas ai que eu ponho no lixo.” Preciso de dizer mais?
Fomos avançando aos altos e baixos. A noite escura e o bailar hipnotizante da luz da bicicleta começava a fazer das suas. O Tiago a alucinar, os dois a rir-se das minhas alucinações do Portugal na Vertical, eu a acusar algum sono… era altura de parar e dormir. Mesmo assim mete-mos na cabeça que havíamos de chegar a Tinteniac. Fizemos a paragem obrigatória na casa que oferece comida em troca de um postal. Era, basicamente, uma festa de garagem e a vontade de sair de tal sítio não é fácil de encontrar. Mais uma paragem em Quedilac e num pulo chegaríamos ao destino da noite.
No fundo sabia que o Tiago precisava de descansar mais do que eu e que haveríamos de nos separar para reencontrar o meu ritmo. Deitei-me no chão de um corredor. Acordei talvez uma hora mais tarde, baralhado e a tremer de frio. Precisei de um pouco de tempo embrulhado no cobertor de emergência para me conseguir levantar e ir procurar um chá quentinho. Precisei de mais um bocadinho para me recompor. Finalmente ganhei coragem de partir. Curiosamente algumas bicicletas de outros colegas de Portugal estavam perto da minha. Olhei em redor, não vi ninguém, assumi que estavam a dormir. Estava na altura de abandonar toda a gente e ir à minha aventura.
Só haveria de reencontrar o meu ritmo alguns quilómetros mais tarde. Mas quando o encontrei foi dar tudo. Pela primeira vez vi-me sozinho na estrada, tão sozinho que comecei a pensar se estaria no caminho certo.
Não me demorei em Fougères mais do que o tempo necessário para o carimbo e fingir que tomava o pequeno almoço com uma sandes de qualquer coisa. O ambiente era madrugador, poucas bicicletas encostadas e toda a gente tinha ar de ser rápido. Que raio estava ali a fazer, pensei. Bem, siga.
Sinceramente não me lembro de grande coisa até Villaines-la-Juhel talvez porque é uma parte dura do percurso com algumas subidas interessantes. Este posto de controlo estava em festa com uma recepção à lá tour.
Não sei bem porque, fui muito bem recebido para o almoço. Alguém, que não faço ideia quem seja, me pôs as coisas todas no tabuleiro e despachou-me, passando até à frente de outros randonneurs. Não percebi mas agradeci. A comunidade estava empenhada em proporcionar o melhor aos ciclistas. Os miúdos até carregavam os tabuleiros de comida até à mesa e faziam-no a sorrir.
Não sabia o que ainda estava para vir mas uma coisa tinha posto na cabeça: não iria dormir mais uma noite no chão, iria chegar a Paris nem que tivesse que tomar 20 cafés.
Energias repostas, altura de me fazer ao caminho com confiança redobrada. Não sei exactamente onde cruzei-me com uma randonneur. tive tempo para dois dedos de conversa, fazer aquelas perguntas banais que se acabam por fazer a todos os randonneurs. Até segui mas às duas por três estava novamente apanhado. Normalmente ando sozinho. Não sou conversador nem tenho muita paciência e além disso, quase toda a gente é mais rápida do que eu. Mas seria estupido esforçar-me só para me afastar ou atrasar o meu ritmo para ir sozinho. Lá se foi andando, trocando impressões com outros ciclistas, cumprimentando os Franceses à beira da estrada e comecei-me a perceber que já deveria ter feito aquilo mais cedo. Falar com as pessoas, nem que seja só um Olá, é uma parte importante da jornada. Só me apercebi à uns dias que algures por meio disto pedalei um pouco com o casal Gruber, para mim dos melhores fotógrafos de ciclismo que por ai andam. Estavam a fazer a reportagem para o Strava. Ora, se tivesse metido mais conversa tinha sido com certeza interessante.
pbp2015Mas estávamos ali para pedalar. O esforço aumentou lentamente e enquanto isso acontecia a conversa foi-se acabando e só o Olá se manteve. Não era só o nosso ritmo que aumentava. Parecia que toda a gente estava a ficar um bocadinho doida. Um calor de trovoada, uma brisa no ar, um dia bonito, estradas rolantes, a ideia de Paris estar já ali e tudo fazia o que podia para absorver todo aquele ambiente.
Depois de 900 quilómetros separados encontrei o Carlos! Estava em Dreux, o ultimo posto de controlo onde tinha descansado umas horas. Fiquei contente, afinal era com ele que estava em França. Eu, a Terri e o Carlos saímos juntos de Dreux mas um problema com a fixação da luz do Carlos fez com que parasse para uma reparação rápida. Mandou-nos seguir que já nos apanhava. Na verdade havia mais que tempo e andar devagar não era realmente uma opção. Mais valia ter parado porque ele nunca mais nos apanhou.
A noite trouxe a chuva e as subidas. A dada altura já não estava a perceber muito bem o caminho, fiquei mesmo um pouco desorientado mas o que importava era seguir as setas. A chuva pouco importava, eram só uns chuviscos e mesmo que chovesse forte e feio já não tinha a mínima importância, Saint-Quentin-en-Yvelines era já ali.
E quase sem me aperceber estava a chegar. Esperei pelo Carlos a 200 metros do final. Sentia que devia-mos terminar juntos e ele não tardou a aparecer.

Completámos 1240kms em 78 horas e 20 minutos. Sempre pensei que o PBP fosse o fim. Afinal foi o principio.

O regresso
Existem dois. O regresso a Portugal e o regresso à vida de todos os dias. O segundo, muito mais difícil que o primeiro. Todos os ciclistas de longa distância sentem uma tristeza e vazio inexplicáveis depois de cada proeza completa. Assumo que este sentimento é transversal a todos os atletas de ultra-qualquer coisa.
A vida é bem diferente para lá da linha de chegada.

Equipamento

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Alforge Albarda com a tralha toda incluindo os produtos de higiene.

Autor: rui

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6 Comentários

  1. Parabéns, obrigado pela partilha!

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  2. Um lindo relato! Obrigado por compartilhar!!!

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