BRM Portugal Além Tejo 1000

Se a memória não me trai, este foi o brevet onde sofri mais antes de o fazer do que durante o mesmo. Será que fiz as escolhas certas? Levo tralha suficiente? Estou preparado? Foram algumas das perguntas que me atormentaram. Sentimento que só se esvaneceu com as primeiras pedaladas da madrugada de dia 18.

A preparação!

Não podia cair no erro de estar 15 dias sem pedalar e ir fazer 1000kms de bicicleta, erro que já cometi no passado para ditâncias inferiores. Portanto as minhas voltas de preparação rondaram os 200 e 300kms de distância, algumas com acumulados jeitosos. Entre estas, as voltas com menos de 100kms servem para manter o ritmo e para que o corpo não se esqueça do que tem que fazer. Na verdade, a ultima volta antes da partida foi um dia antes.. ou dois, já não me recordo.

Uma bicicleta “nova” construída de raiz a pensar em grandes viagens, pedais novos mais amigos dos joelhos, sapatos novos, mais um ou outro pormenor e a coisa parecia-me encaminhada. A alimentação concentrada passou por apenas duas barras da SIS, uma da Cliff e montes de pequenas barras caseiras que muito jeito deram.

A noite anterior!

Algumas peripécias desnecessárias fizeram com que não tivesse uma véspera tão descansada como queria, no corrupio de Lisboa. Mas a falta de descanço durante o dia fez com que dormisse melhor do que seria de esperar até às 5:30 da manhã, apesar do entra e sai do pessoal de hostel. Acordei antes do despertador, preocupado com arranjar um local para tomar o pequeno-almoço. Felizmente, encontram-se abertos de madrugada pequenos cafés. Só semanas mais tarde me apercebi que os colegas dos outros paises tinham arranjado maneira de o pequeno-almoço no hostel ser mais cedo do que o normal.
Atrasei-me uns ligeiros minutos e não fiquei na foto de grupo da partida!

Parte I – 400kms

A ideia base seria dividir os 1000kms em três etapas com períodos de descanso entre elas. Não quer dizer que fosse cumprida mas era a linha geral que íamos seguir. Alguém disse “isto não começa nada mal” sentado num banco de um pequeno barco, só para nós, que nos levava para o outro lado do Tejo, salpicando-nos de água do rio. Havíamos de fazer outra travessia mais à frente, para Troia, e também nessa se ouviu um “não há mais rios para atravessar?”. Reinava a boa disposição, afinal tinha sido metade do percurso a pedalar e metade a andar de barco.
Foi em Troia que a coisa começou a sério e se agarrou um temível inimigo pelos cornos. Inimigo que nos havia de fazer frente durante 200kms, o vento, por vezes demasiado forte para os planaltos descampados que havíamos de apanhar. O Cercal chegou depois de umas subiditas e umas agradáveis descidas que a N120 proporciona. Com 120kms feitos e conhecendo a qualidade do local de paragem, herança de outros brevets, não podiam faltar a sopa, as sandes, os bolos e o doce de medronho à colherada.
A próxima paragem havia de ser uns metros antes de entrar no Algarve, junto a Odeceixe, ponto de chegada do Portugal na Vertical. Por esta altura o nosso grupo era constituído por 3 artolas companheiros de outros brevets que pedalavam devagar contra o vento, o Carlos e o Albano. Eu estava dividido entre tentar andar mais rápido e ter a companhia do grupo. Desta vez, escolhi quase sempre a companhia do grupo.
Pouco depois encontrámos um randonneur parado, a segunda desistência do dia por motivos físicos. Como alguém disse “há mais brevets que joelhos”… por muito difícil que seja desistir, fica para a próxima.
O nosso ritmo alegre e descontraído, os furos e um ou outro problema menor, tudo fez com que chegássemos a Sagres já de noite. A falta de conhecimento e a pressa fez-nos escolher mal o restaurante, de que infelizmente não sei o nome. A demora e pouca simpatia levantou-nos em direcção ao hamburger mais caro que comi até hoje mas, tenho que ser sincero, estava muito bom e foi acompanhado com muita boa vontade e simpatia. Eramos agora um grupo de cinco randonneurs, se não estou em erro.
A travessia do Algarve foi acompanhada de alguns chuviscos, sono e chuvadas. A chuva acabou por ser uma presença mais ou menos constante nesta primeira noite. Felizmente a temperatura esteve aceitável e o frio não chegou ao pelo. Encharcado mas sem frio. Havíamos de fazer algumas paragens, havíamos de encontrar e perder o nosso colega Alemão que não estava preparado para a chuva e acabaríamos por chegar a Vila Real de Santo António já pela manhã. O primeiro momento Randonneur de Luxo consistiu num jantar (sim, jantar de manhã), banho, roupa lavada, uma hora de sono e um pequeno almoço servido pelos incansáveis voluntários.

Parte II – 300kms

O grupo do dia anterior estava destinado a ser desmembrado e cedo se instalou essa tendência. Todos precisam de um momento a sós. Preferi atacar logo à partida as subidas do chato IC27 e distanciar-me, ainda que às vezes, só por breves momentos. Mértola, terra bonita que nunca tinha visitado e onde decidi imediatamente que havia de ser o sitio onde ia almoçar. Não fui o único e enquanto o fazia tive a visita inesperada de um colega randonneur do norte, o Manuel, ao mesmo tempo que via os colegas de viagem do dia anterior passarem, ora já almoçados, ora com ideias de almoçar mais à frente.
Na verdade, na verdade, a janela de tempo disponível para o próximo posto de controlo não era assim tão confortável. Com esta ideia em mente pedalei o mais depressa que pude, tendo em conta os desníveis Alentejanos aliados à barriga cheia. Acabámos por formar um pequeno grupo de 3 mesmo à chegada a Serpa. Este separa e junta foi constante ao longo destes 300kms que também foram aqueles que proporcionaram os mais belos momentos de todo o percurso. Lembro-me de chover forte e feio durante alguns minutos para imediatamente e de maneira quase mágica o sol abrir e uma brisa quente soprar, enxugando corpo e alma. Lembro-me de um magnifico por de sol acompanhado de uma trovoada do lado direito numa estrada plana e sem carros espintaçada por uns pingos de água. Lembro-me de uma noite escura como breu, noite de onde todas as nuvens fugiram e se podia ver um esplendido céu estrelado, como não via à muito.
Mas também me lembro de um raio de um sobe e desce de Reguengos de Monsaraz até Campo Maior que me apanhou desprevenido e fez mossa nas pernas de muito boa gente.
O segundo momento de luxo da viagem teve um pacote composto por um jantar, um banho, mais roupa relativamente lavada, duas horas de sono e um pequeno-almoço, mais uma vez, tudo empurrado pelos voluntários.

Parte III – 300kms

Depois das duas horas de sono, a madrugada mostrou-se especialmente bonita. Um nevoeiro esquisito envolvia as oliveiras e ovelhas mas não estava de modo nenhum frio. Nem a larga estrada, daquelas que não gosto, em direcção a Portalegre impediu a correcta apreciação da paisagem.
Não tenho a completa certeza mas desde que deixamos o ferry, o grupo que se formou depois de Portalegre deve ter sido dos maiores, ainda que por poucos quilómetros. Eu, Carlos, Pedro, Helle, Stuart, Juan e o José apanhou-nos no posto de controlo… acho que não me esqueço de ninguém. Fizemos uma agradável estrada com ligeira inclinação direito a Castelo de Vide, sempre a bom ritmo e depois a subida até aos 600 metros, mais coisa menos coisa. O Carlos e o José acabariam por seguir caminho mas os restantes foram em busca de algo para comer.
Tem que ser dito, arrisquei e comi uma tarte de nata enorme com gila por dentro, tão densa que estava a ver que não conseguia acabar. Ainda por cima, recebidos com imensa simpatia, a pastelaria Sol Nascente merece que escreva aqui o seu nome.
Arranquei um pouco antes dos outros, sabia que o grupo que se havia formado era apenas temporário e assim foi. Desci o mais depressa que pude mas cedo fui ultrapassado pelo Pedro e Juan, logo seguidos pela Helle. O Stuart apanhou-me em Alpalhão e fomos conversando, na medida que o meu inglês deixou, enquanto se ia apreciando a bela paisagem que as estradas rurais nos mostravam. Esta parceria também se havia de acabar quando os troços largos da N118 mostraram que eu não estava à altura da velocidade do Stuart e reencontrar o Carlos foi a desculpa que precisei para abrandar. Não tarda nada, estávamos em caminhos conhecidos de outros brevets, sinal que Lisboa estava próxima. Apanhámos restos de uma forte chuvada que o grupo mais à frente havia de apanhar com a força toda, mas por esta altura a chuva era uma companhia e não incomodava nada.
Acabaríamos por se encontrar os três do último paragrafo no último posto de controlo, Alpiarça, acabando por fazer o resto da viajem juntos. A travessia do Tejo foi algo atribulada: a ponte de metal dita que as bicicletas devem ir pelo passeio mas isso é demasiado perigoso dada as poucas protecções laterais e o diminuto espaço disponível; ora o nosso andamento lento não deu para fazer a travessia no tempo disponível antes do semáforo ficar verde para o transito da outra margem, o que gerou alguns atritos com os condutores enlatados. Ainda tivemos que comer algum pó da apanha do tomate, mas quase sem dar por isso estávamos em Vila Franca de Xira, onde fizemos a última paragem da viagem. Não era necessária mas soube muito bem. Foi como que uma pré-celebração. Gelado, Cappucino, Coca Cola e dois dedos de conversa, tudo oferecido pelo simpático Stuart.
Acho que demorámos tanto tempo de Vila Franca de Xira até ao parque das Nações como de lá até a Belém. É absolutamente ridícula a quantidade de faixas, semáforos, espera, arranca, não sei se posso, não sei se quero, buracos que parecem resultado de um bombardeamento… ah.. como adoro Lisboa.

Chegada

Foi uma pequena festa. Ninguém parecia muito cansado e os sorrisos eram muitos, apesar de eu ficar um bocado sério quando acabo com sucesso uma coisa destas. Entre os bolos, café (com whiskey), cervejas e tal, ninguém parecia com vontade de ir dormir. Eventualmente havíamos de se dirigir para os beliches que a organização nos tinha reservado para esta noite para adormecer quase imediatamente.
Tenho que agradecer a todos quantos me acompanharam e tornaram a viagem mais fácil, aos voluntários, à empresa onde trabalho por me desmobilizar os dias que precisei e à pessoa que ficou em casa e atura estas aventuras.
Aos colegas Randonneurs vindos de outros países, vemo-nos no Paris-Brest-Paris.

Autor: rui

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1 Comment

  1. Parabéns e fico à espera desse Paris- Brest- Paris

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